Acordo de madrugada de um sonho na qual não lembro qual foi, e imediatamente abro os olhos.
A noite é mágica!
Olho à minha volta e percebo que há algo de diferente no ar, como se o espaçotempo estivesse tentando me pregar uma peça, me colocando em um universo paralelo. Tudo está exatamente igual. O mesmo teto de laje sem embolço e um guarda roupa ao lado da cama. O mesmo lençol verde vômito sobre o meu corpo em um colchão sem coberta. Mesmo assim eu percebo que tem alguma coisa de errado. Como a música estranha do mensageiro do vento na porta da sala, ou os tubos de luz que vem da rua entrando pelas persianas da janela. Tudo exatamente da mesma forma, mas existe alguma coisa imcompreensível a percepção humana na qual naquele momento passo a perceber, e compreender que estou em outro lugar. Como se o ar flutuasse suspenso no ar. Como se o chão estivesse mais baixo e meus pés precisassem de um relance a mais de tempo para tocar o chão. Levanto e passo pela porta entreaberta do quarto me esforçando para não toca-la e quebrar todo o encanto. Caminho pelo corredor que leva até a sala(corredor esse que eu jamais havia notado que existia) e saio pela porta da frente com a mesma roupa do corpo.
Aí está a prova:
Nenhum passaro canta ou grilo esgarniça. Não há gatos no telhado,ou motocicletas chamando atenção nas ruas. A cidade, toda ela, está em absoluto silencio. Não há criaturas da noite ou o som do vento, sequer há vento. É como se ele não existisse mais nesse plano de realidade paralela em que estou.
Saio a rua e ela está completamente deserta em uma atmosfera angustiante de ar seco e sem vento. A calçada de concreto com flores amarelas murchas caídas no chão e a rua de pedras paralelepípedo ao estilo colonial fazem contraste com a iluminação alaranjada, cor padrão moderna do Rio de janeiro.
Estamos em setembro, por isso ainda é inverno, mas o céu está completamente limpo e negro- Mais uma prova de que não estou no mundo real.- e a lua está particularmente linda. Quase gigantesca e brilhante de um modo na qual eu jamais havia visto antes, e à sua volta leves nuvens extremamente brancas, cumpridas e suaves, fazendo contraste com o a cor do céu, como excesso de açúcar bem dissolvido e flutuante no café preto.
Foi quando por um golpe de mágica eu a vi!
Em meio a um silencio ensurdecedor, começo a ouvir uma música medieval, e derrepente surge uma dama com um longo vestido vermelho de baile, saltando por sobre o muro da esquina.
Como uma donzela em perigo dos contos de fadas ela ignorou as correntes mágicas que a seguravam e escalou os muros do gigante castelo que a aprisionava. Seus cabelos negros caídos sobre os ombros de pele extremamente branca, e seu vestido púrpura davam-lhe a glória da mais divina beleza gótica que, somente havia visto em telas de pinturas medievais.
Oh encantada que nascera da terra, brotara do chão e por isso recebeu do ventre materno, que é a natureza, o dom de ser chamada sagrada e santa! Vivera acorrentada dentro de um gigantesco castelo de madeira, e cansada de viver em sua prisão de angústia esquecera-se a estima que tinha pela própria vida e resolveu arriscar-se. “Ou terei a vida livre, ou a morte!”. Dotada do mesmo sentimento de auto-preservação que a manteve submissa ás suas prisões, ela se levanta e corre pelas escadarias do castelo, subindo assim até ao ponto mais alto da torre mais alta, e saltando quase suiscidamente até o muro onde se encontra encurralada nesse momento. E assim a dama de vermelho escarlate em prantos faz com que toda a noite á sua volta pareça mais cinza e incomum, lançando o universo em um teorema de caos silencioso e su-real da realidade.
Eu poderia chamar alguém para comigo presenciar e compartilhar tal cena, milagre maravilhoso e mágico da natureza,mas ninguém entenderia. Qualquer um que não estivesse compartilhando do mesmo universo que eu olharia e, com ingênua ignorancia, diria:
“-Porque está tão perpléxo Rodrigo? É só uma rosa no muro da esquina!”.
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