Outro dia, fui a Duqe de Caxias, cidade vizinha ao Rio de Janeiro, levar minha sobrinha ao circo. Mas a palhaçada mesmo começou depois que a gente saiu da tenda principal e foi embora.Deviam ser umas 21h. Estávamos eu e minha mãe levando minha sobrinha e minha irmã em casa, que ficava próxima de onde haviam montado o tal circo. Em tempo, essa é uma situação absolutamente bizarra, incomum e imprevisível. É como colocar, no mesmo carro, o George Bush (mãe) e o Osama Bin Laden (irmã) e o trouxa do Kofi Anan (Rodrigo) pra amenizar a situação. Mas a Nicole (sobrinha) adorou o passeio. Especialmente porque, até o momento, a contagem de corpos ainda não havia começado.Daí, olhando pela janela, eu atento pra um sujeito caído no chão. Um homem, de seus 40 anos, estirado que nem um... Bom, que nem um quarentão caído no chão. Assim, de repente. Sabe aquela coisa de “no meio do caminho, havia um homem caído no chão”? Então.É claro que minha primeira reação foi lançar uma análise calcada no bom e velho pré-conceito: achei logo que era algum bebum, que tinha pedido fiado demais naquela noite. Não era. Não podia ser. Observei melhor e me dei conta de que, a menos que os bêbados veteranos tenham isenção fiscal em Resende e, além de birita, possam comprar tênis Rbk e abrigos da Nike, aquele poderia ser um sujeito qualquer, que andava na rua e caiu. Ou poderia ser alguém que foi alvejado durante um assalto. Ou uma vítima de seqüestro-relâmpago recém-descartada. Ou um cara que foi abduzido por alienígenas e se negou a fazer aquela coisa com a sonda. Ou... Enfim, deixei minha imaginação fluir através dos enlatados americanos de TV que assisto. E, justamente por isso, peguei o celular e disquei 190. Transcrição do diálogo:(eu sou o pretinho)
“Polícia Militar, boa noite.”
“Boa noite. Olha, eu estou na Morada da Colina, no centro, próximo à praça, e tem um homem caído aqui. Eu gostaria de saber se vocês poderiam mandar uma ambulância...”.(eu sou muito formal e objetivo ao telefone, quando tem gente aparentemente morta ao meu lado)
“Ele está ferido? Ta machucado?”
(se eu fosse médico o suficiente pra dar o parecer, não ligava pra você) “Bom, eu não sei, mas...”
(interrompendo) “Então liga pra 193. É a Emergência.”
“Tuuuudo bem”.
Pego o telefone e disco pro 193, pensando em que tipo de cretino desenvolve um sistema de Serviço de Emergência que não tem interligação entre Polícia e Central de Ambulâncias, já que coube a mim “discar o ramal”. Mas a culpa pode ser do tipo de cretino que OPERA o tal sistema. Isso me consolou. Mas o cara do chão não parecia ter ficado tão tranqüilizado...
Minha mãe, que estava dirigindo o carro, me pergunta se deu tudo certo com a ligação. Eu ia dizer pra ela que algum fidumcorno me pediu pra fazer a boa ação do dia em outro número, mas o cara do 193 atendeu na hora:
(conversando com alguém) “Então, fala pra ela que hoje não vai dar. A Central ta cheia, maior correria e...”
“Alô?”
“Corpo de Bombeiros, boa noite.”
“Boa noite. Tem um homem passando mal aqui na Morada da Colina, no centro. Ele estava caído e...”
(interrompendo com ar de estafa) “Olha, meu amigo, ele está sangrando?”
(irritado porque eu não estava perguntando as horas, e sim noticiando um ferido, cacete!) “Eu não sei! Estávamos passando, ele estava no chão e...”
(interrompendo de novo, conclusivo) “Porque se não estiver, não podemos mandar a Ambulância. Aqui a coisa funciona assim e...”
(interrompendo a interrupção, numa falta de respeito ao quadrado, puto porque, segundo a cidade de Duque de Caxias, apenas sangramento visível é motivo pra socorro)
“Escuta, tem um cara caído aqui. Se você não pode mandar o raio da Ambulância, liga pra quem pode!”
(explicando) “Amigo, aqui nós temos que nos certificar...”
(muito puto da minha vidinha) “Então você liga pra alguém! Tem um sujeito caído aqui!”
(batendo boca) “Ei, você acha que é assim? Eu não posso simplesmente mandar uma ambulância toda vez que...”
(rodando a baiana) ”MAS NÃO É ESSE O SEU TRABALHO??? Então me passa a porra do telefone de quem pode, se você não quer socorrer o cara!”
(indignado à la Louis XIV) “Mas EU sou o socorro!”
(com vontade de ter ligado de um telefone fixo, só pra poder desligar na cara dele e fazer barulho)
“É, e está NEGLIGENCIANDO socorro!”
(pensando em como seria bom atirar no meu joelho) “Espera aí, meu amigo, você...”
(finalizando a ligação, só pra ele ficar puto e descontar em algum subordinado) “Obrigado!”
A essa altura o homem caído já estava até se levantando. Minha mãe perguntou pra ele se estava tudo bem. Ele respondeu alguma coisa, no idioma dos caras que caem na rua e levantam grogues, e ninguém entendeu (mas, bom, ele levantou). E eu já estava puto até com o pobre coitado:
-“Eu aqui me matando pra te arrumar socorro e você nem pra ter a decência de ficar deitado? Apaputaqueopariu também!”
Mas eu não cheguei a verbalizar isso. Só pensei. Minha sobrinha estava dentro do carro, no meu colo, e eu queria que ela pensasse que eu era o herói do dia, tentando salvar o mundo dos telefonistas de emergência malvados e displicentes.
Tudo bem, eu até entendo o lado do cara. Pesquisei a respeito e vi que, diariamente, os operadores do 193 recebem trotes às centenas, em todo o país. Acontece assim: algum filho de uma profissional do sexo entra numa de ligar e dizer que em tal lugar está acontecendo um incêndio num conjunto habitacional. Aí a central vai, mobiliza paramédicos, ambulâncias, aciona o corpo de bombeiros, faz aquela mega operação de logística e, chegando lá, encontram um terreno baldio. É foda. Falta de critério e desperdício de recursos públicos. Isso devia ser crime punido através de circuncisão com cera quente, na boa.
Acontece que o bairro onde eu e minha família encontramos o pseudodefunto se localiza ao lado de um Parque de Exposições, que sedeava um circo. O tipo de evento que tem que ter, de praxe, uma viatura policial e uma ambulância a postos. Ao menos em teoria. Custava alguma coisa o sujeito do 193 ter mandado alguém lá, pra dar uma olhada no hominho? Sacanagem.
Conclusão: fomos levar as meninas em casa, brigamos (a noite não estava totalmente perdida, afinal!), o caboclo do chão foi embora com a cara toda suja de areia e eu descobri que, quando for ligar pra 190, 193 ou trinca similar, vou prontamente dizer, assim que atenderem:
-“Oh, meu Deus, quanto sangue!!!”
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