Eu estava solitário como sempre, em um bar típico e comum do subúrbio carioca, vestindo minhas típicas roupas esquisitas, sendo tipicamente um desajustado social que bebe cerveja e vodka às quarta-feiras e acorda na quinta sem ressaca. Eu estava lá. Pensando em qual momento da minha vida eu havia decidido ser um sujeito totalmente desprovido de afeto e sem a mínima necessidade de vida sentimental aparente. Eu acho que esse é o tipo de coisa que agente não planeja, só vai acontecendo. A maioria das pessoas que se casam e tem uma considerável vida social e afetiva relativamente normal, meio que não escolhem isso, as coisas só vão acontecendo. As coisas vem acontecendo na vida meio que por intervenção externa. Derrepente você resolve chegar naquela garota, e ela aceita, e aí algum tempo depois você está namorando(tem gente que nem pede o outro em namoro, só passa a ser namorado assim sem um momento marcado oficial) e aí noiva por que gosta da namorada, escolhe o melhor emprego que lhe vier à mão(e não aquele de bombeiro que sonhou quando era criança), e quando menos percebe ela está grávida! E assim continua o ciclo sem fim como diriam os produtores de "O rei Leão".Comigo aconteceu mais ou menos assim, eu nunca escolhi realmente ficar sozinho, nem ser "O cara esquisito da mesa de bar", na verdade eu nem planejei estar em uma mesa de bar em plena quarta-feira. Na verdade eu nem gosto de cerveja... Nessa hora é que eu percebi que uma coisa senão inédita, muito rara está acontecendo: Na mesa à frente, de frente pra mim, uma moça esquisita, com um sorriso esquisito, vestindo roupas esquisitas, e bebendo cerveja com vodka em plena quarta-feira. Mas o mais esquisito não era o fato de ela ter tão mal-gosto pra se vestir quanto eu, e nem o hábito absurdo de encher a cara bem no meio da semana sem acordar de ressaca no dia seguinte. O que de fato me era inédito(ou senão completamente raro) é que sem nem disfarsar fingindo pudor ela estava deliberadamente me olhando! Mas ela não tava me olhando com aquele típico olhar "Argh, que nojo", mas sim com um olhar de quem estava flertando mesmo! Era bom demais pra ser verdade, eu não podia falhar! Pra ter certeza de que ela não estava me olhando por que eu estava com a cara suja, com um bigode de cerveja ou com alguma sujeira no dente, puxei meu espelho de bolso e comecei a examinar o rosto pra ver se não havia nada de errado(só pra não ficar com falsas esperanças sabe?), mas quando me dei conta de que não havia nada de errado comigo eu olhei pra cara dela e ela tava meio que rindo... Provavelmente rindo do palhaço que quando tem uma garota flertando com ele puxa um estúpido espelho de bolso pra ficar esfregando os dentes da frente com os dedos! Droga essa é a história da minha vida sempre estragando tudo! Mas aí quando eu já comecei a sentir o rosto ficar quente de vergonha, eu olhei pro lindo rosto pálido dela, ela olhou pro meu (Não tão) lindo rosto pálido e então ela levantou a mão e acenando ela disse "Oi". Bem assim, igualsinho no comercial, só que sem voz, pois ela só tinha abanado a mão direita, o que significava que ela era destra e daria uma excelente datilógrafa e enfermeira. Não sei o que isso tem a ver, mas quando eu fico nervoso não consigo me concentrar no assunto, e um assunto me levando a outro dentro da minha cabeça, e eu me esqueci de responder! Levantei a mão em um golpe rápido no ar e acenei também! Ela sorriu, e sinalizou com a mão como quem diz que queria conversar comigo. Eu fiz que sim com o polegar, e ela levantou e se sentou na mesma mesa que eu! Eu olhei pra cara dela e ela olhou pra minha. Eu tentei mover a boca, e ao mesmo tempo ela também. Foi aí então que caiu a ficha: Ela era muda! E provavelmente por causa disso também deveria ser solitária, e ao me ver ali sozinho pensou que eu fosse mudo também, e agora ela estava falando comigo sinalizando alguma coisa que eu não sabia bem o que era, mas se fosse pra arrumar uma companhia mesmo que fosse muda, valeria à pena tentar se comunicar. Ficamos ali por cerca de duas horas trocando sinais. Pelo que entendi, ela era tatuadora, e morava com os pais, detestava pimenta e adorava rock. Não foi uma noite exatamente mágica, mas completamente inovadora pra mim, conversar pela primeira vez com uma pessoa sem o dom da fala meio que abriu a minha mente para um novo horizonte me fazendo enxergar assim um novo universo. entre um levantamento de copo e outro tomei coragem de pedir à ela um beijo(ainda somente em linguagem de sinais, é claro)e ela me beijou. O universo dela era completamente diferente do meu, porém completamente idêntico, pois sua vida provavelmente aconteceu exatamente igual à minha, de decisões não tomadas apenas fatos que iam acontecendo uns atrás dos outros levando-a exatamente aonde está agora! Eu nasci esquisito, e ela nasceu muda.Nasceu muda?! Eu nem sabia se ela realmente havia nascido muda, eu apenas fui concluindo isso, e esse era o tipo de pergunta complexa na qual não dava pra perguntar somente em linguagem de sinais. Então larguei todo esse meu espírito de altruísmo e empatia e resolvi perguntar em voz alta logo depois do beijo:
-Então, você é muda?
Ela responde:
-Não. E você?
Bom, foi assim que eu conheci a Camila, uma garota esquisita que não sei por que achou que eu era mudo! Aff,detesto gente esquisita, por mim essas criaturas tinham que morrer sozinhas!
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